Evaristo de Macedo relembra campanha campeã de 1988

Evaristo de Macedo, Mestre Evaristo, professor ou apenas Evaristo (ele gosta de ser chamado só pelo prenome), apesar dos 85 anos de vida, com muita história no futebol. Com a mesma intimidade que tratava a bola nos tempos de jogador, o treinador campeão brasileiro pelo Bahia em 1988 compartilhou lembranças do elenco que bordou a segunda estrela na camisa tricolor. Um time que, segundo ele, treinava muito e tinha a união dentro e fora de campo como característica. Briga? Nenhuma, apesar do afastamento do lateral Zanata três semanas antes do início da campanha. Em Salvador para as comemorações dos 30 anos do bi, Evaristo deu entrevista ao CORREIO no aeroporto, acompanhado do filho Pepe e do ex-zagueiro João Marcelo, antes de voltar ao Rio de Janeiro.

CORREIO: O senhor se lembra do convite para vir treinar o Bahia? Partiu de quem?
Evaristo de Macedo: Eu já tinha trabalhado no Bahia mais de uma vez. Maracajá me ligou e nós já tínhamos trabalhado juntos antes. Ele me explicou qual era a situação do clube na época, lembro que perguntei tudo a ele, pesquisei quem era aquele Bahia. Conversamos sobre as possibilidades e os objetivos do clube. Eu disse a ele: “Se é para ir aí pra fazer um campeonato sem qualquer pretensão, eu estou fora. Eu quero ir para competir. Se vai ser campeão eu não sei. Mas quero competir. Se você aceitar nessas condições…”. Ele respondeu: “Não, não, pode vir”. Chegamos a um acordo salarial e eu vim.

C: Então o Bahia não entrou no Brasileirão como mais uma competição a ser disputada? Já havia desde o início algo diferente no ar?
EM: Primeiro que nós montamos a equipe pensando no Campeonato Brasileiro. E deu tudo certo. Porque no futebol às vezes você faz as coisas direito, planeja tudo e não dá certo. No futebol, a bola é redonda. Já no Baiano eu dizia para o grupo: “Se a gente não jogar com objetivos claros, certos, não há motivação”. Jogar por jogar não nos interessa. Já no início do ano, eu sentia que tínhamos condições de chegar bem. Claro, pensamos em um ou dois reforços, mas a gente sabia que o grupo tinha uma força e um objetivo. Claro, ninguém vai dizer: “Ah, eu vou jogar e vou ser campeão. Isso não existe. Mas nós tínhamos um bom elenco, alguns reservas muito bons”.

C: Vocês sabiam que podiam chegar…
EM: No futebol, às vezes, o próprio grupo, os jogadores, eles conhecem a força dos adversários e acabam não acreditando neles mesmos: “Ah, vai ser difícil, nós vamos tentar”. Naquele Bahia, ninguém quis tentar. Nós saímos com o objetivo de chegar junto para decidir. Nós queríamos chegar na decisão. E aí na decisão vamos ver o que acontece, né? Porque decisão é um jogo muito diferente. Existe o fator psicológico, a responsabilidade é muito maior. A mentalidade dos jogadores ajudou. Em muitos grupos, os reservas não são muito satisfeitos. No Bahia, não. Eles entendiam aquela condição, entendiam a minha posição de treinador. Era um grupo fechado. Fechado até hoje! Tanto que até hoje eles são amigos, fazem reuniões. Agora, não é só a união, né? Eles também tinham muita qualidade. Tínhamos bons jogadores.

C: O senhor se lembra de alguma briga naquele grupo?
EM: Não tinha briga. Só no início da competição que mandei afastar um jogador. Não vou citar o nome dele porque não quero expô-lo. Mas eu vi que ele não estava entrosado e tirei. E era um jogador até bem requisitado. Mas eu senti que a presença dele não estava trazendo nenhum benefício pra gente. Não tinha por que continuar.

C: A união daquele grupo extrapolava o campo?
EM: Nós tínhamos um time tecnicamente muito bom, mas principalmente muito entrosado dentro e fora de campo. Fora de campo, o entendimento entre eles era muito bom. Era leve e tranquilo. A concentração era enorme. Nós tínhamos um ambiente muito favorável. Na hora do jogo, tínhamos, sim, titulares e reservas. Mas fora do jogo, todos eram titulares, todos eram iguais.

C: Era um time sem grandes salários. Esse foi um fator que uniu ainda mais o grupo?
EM: Todo time tem aqueles com salários maiores. O contrato não é coletivo, mas individual. Tem uns jogadores que ganham mais e outros que ganham menos. A compensação daquela época era de que, se você ganhasse o jogo, você ganhava uma gratificação: o famoso bicho. O bicho era bom porque não era só para quem jogava. Quem não jogava também recebia uma parte desse bicho. A gente fazia uma caixinha, todo mundo ganhava. Até nisso era uma união muito grande.

C: Jornais da época publicaram que o Bahia treinou durante todo o Carnaval. Algumas vezes até os três turnos. Quer dizer, era um time que treinava bastante. O pessoal não reclamava?
EM: Não! E nós treinamos muito. Nós entendíamos que não éramos melhores nem piores que ninguém. Nós éramos iguais. A partir dessa igualdade, nós queríamos ser superiores. Como faz isso? Treinando.

C: Como era o diálogo do senhor com os jogadores?
EM: Uma coisa muito importante é fazer com que os jogadores passem a conhecer melhor os adversários. Eles têm que saber quem são os caras que vão enfrentar. Eles têm que se interessar! Tentei despertar isso neles e eles entenderam. Eu fui jogador por muitos anos e eu queria saber quem era o meu marcador, como ele marcava. Aquele time do Bahia tinha isso. Os jogadores estudavam os adversários. A gente não ia pra campo sem conhecer quem a gente ia enfrentar.

C: E o vestiário? Fez a diferença? Qual era o clima do vestiário daquele Bahia?
EM: Nós tínhamos um vestiário fechado para quem não tinha nada a contribuir. O problema do vestiário é que, quando tem um jogo importante, todo mundo quer ir no vestiário. Todo mundo quer dar um alô, tem dirigente que quer fazer discurso. Nós, não. Nosso vestiário era fechado. Tinha os jogadores, os funcionários diretos e os dirigentes que eram da nossa área. Aí vem o cara lá do basquete querendo ver a preleção… Não! Nada a ver. Eu não vou lá no basquete, pô! Muita gente reclamava.

C: Algumas manchetes da época dão conta de um Bahia ‘sensacional’ e ‘espetacular’ em algumas partidas. Quer dizer, o time deu liga, né?
EM: Sem dúvida. Quando você faz um time, você sabe que dois ou três não vão estar no ápice. A gente estava preparado para superar qualquer dificuldade. E levamos para dentro de campo a união que existia fora de campo. De modo geral, o nosso comportamento era muito bom. A gente não caía e mantinha uma média. A gente subia de qualidade em um jogo e, no próximo, mesmo sem jogar tão bem, mantinha um patamar muito bom.

C: É verdade que o senhor foi assediado por outros clubes durante aquela campanha do bicampeonato?
EM: Tive propostas boas, mas resolvi ficar porque sabia que podíamos chegar longe. Quando acabou, a gente não tinha condições de continuar. O Bahia começou a desfazer o elenco e eu também fui procurar a minha vida. Tive três propostas muito boas. Optei por uma (Guarani) que nem deu muito certo. O futebol tem isso também. Você analisa e não é bem aquilo.

C: A carreira do senhor é extensa e vitoriosa. De estrela do campeoníssimo Real Madrid, do Barcelona e da Seleção Brasileira até treinador dos maiores clubes do país. Onde está o Bahia nesse meio?
EM: Olha, eu não ganhei só o Campeonato Brasileiro com o Bahia. Ganhei uma porção de títulos por aí, mas esse é especial. Não exatamente pelo título. Mas porque não tem nada igual a você trazer algo para um grupo de jogadores e eles acreditarem naquilo que você está falando. Aqui no Bahia era tudo conversado. Eu ouvia os jogadores, eles nos ouviam e cumpriam as determinações. O Bahia era um time bom e humilde. Esse é o diferencial. Não tinha soberba. (As informações do Correio)

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