As dores das despedidas

Somos corneteiros. Falo de nós, torcedores de clubes brasileiros. Alguns reivindicam ser os mais críticos e implicantes do país. Tem a Turma do Amendoim palmeirense, a galera das numeradas do Morumbi. E tem também os corneteiros baianos, naturalmente intolerantes.

Por conta dessa cultura, foi inusitado acompanhar o último jogo do Bahia na temporada. Nada de vaias, xingamentos ou críticas mais ácidas. Nomes dos jogadores preferidos foram cantados e as saídas de peças importantes, lamentadas. No campo, os atletas despediram-se emocionados. Sinal claro de uma nova fase do clube, em que passa a ser prazeroso defender o Tricolor. Poucos anos atrás, parecia mais uma tortura.

Zé Rafael e Gilberto são os mais queridos. O primeiro já está vendido ao Palmeiras. O segundo tem alguma chance de permanecer. Ambos tiveram, de fato, passagens relevantes pelo Bahia, mas prefiro comentar um outro adeus, este sob menos holofotes.

Emprestado pelo Fluminense até o fim desta temporada, Léo vai atuar pelo São Paulo, que pagará R$ 4 milhões para ter o lateral esquerdo em definitivo, com salários de R$ 200 mil. A diretoria do Bahia achou os valores altos e não tentou cobrir. Ao mesmo tempo, o negócio não ofereceu muita chance de conversa para a cúpula do Esquadrão, já que o Flu, desesperado por dinheiro, preferiu fechar logo a venda.

Pelo cenário atual do mercado do futebol e pelo potencial do jogador, considero plausíveis os valores e veria como pertinente o investimento do Tricolor para ficar com Léo. A posição é complicada, há poucas opções de qualidade. E o atleta ainda apresenta a característica rara de dar profundidade ao time, com sua facilidade de alcançar a linha de fundo. Por que isso é importante? Porque há sempre opção de passe simples no campo de ataque e, da linha de fundo, mesmo que o cruzamento não saia da maneira mais adequada – e Léo, realmente, precisa evoluir muito nesse ponto (falta mais serenidade na hora de escolher a jogada do que propriamente técnica para executar) – há chance de levar perigo ao adversário até com uma bola mal cortada pela defesa.

Trago no infográfico, tirado do site Footstats, mapas de participação com a bola de Léo (esquerda) e Paulinho, o único jogador da posição que o Bahia tem para 2019, por enquanto – as partidas em questão terminaram com triunfos como mandante (Léo contra o Paraná e Paulinho diante do Sport).
Participação com a bola de Léo (esquerda) e Paulinho, o único jogador da posição que o Bahia tem para 2019
Participação com a bola de Léo (esquerda) e Paulinho, o único jogador da posição que o Bahia tem para 2019

A diferença de comportamento é nítida. Paulinho atua mais com toque de bola entre as intermediárias e tem pouca força para apoiar de forma aguda o ataque. É só conferir a quantidade de vezes que cada um ultrapassa a risca da área. E a comparação não é válida apenas do lado canhoto. Na lateral direita, apesar da fama de velocista incansável, Nino também mostra profundidade bem menor. Os cruzamentos são quase todos feitos, no máximo, próximos ao bico da área ofensiva.

Nem mesmo os eleitos melhores do setor no Brasileiro (o destro Mayke, do Palmeiras, e o canhoto Renê, do Flamengo) têm agressividade semelhante à de Léo. Renê, por sinal, em alguns jogos não alcança nenhuma vez a linha da área de ataque.

Falta ser decisivo

A contrapartida é que o carioca de apenas 22 anos ainda terá de usar bastante sua juventude para evoluir a ponto de ser mais decisivo. Na Série A, não fez gol e deu somente uma assistência. A falta de capricho na parte final das jogadas é evidente, mas a produção é tamanha que Léo aparece como o terceiro atleta do Bahia que mais deu passes para finalização: 30, contra 37 de Vinicius e 38 de Élber.

Domingo, contra o Cruzeiro, um dos melhores lances do Bahia saiu de um avanço dele. Após tiro de meta do goleiro da Raposa e bola ganha pelo alto por Nilton, Léo parte do campo de defesa e só para perto da linha de fundo, de onde achou Edigar Junio com um belo cruzamento. Mas ele testou por cima. Também não ajudaram muito o cara a se consagrar, né? (As informações do A Tarde)

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